logo

 

Entrevista ao Jornal Médico

img

 

08 Abril 2021

Luís Mendes Pedro: “O tratamento da patologia venosa foi muito prejudicado pela pandemia”

Depois de um ano de pandemia, o impacto nas doenças vasculares fez-se sentir fortemente. Esta é a visão do diretor do Serviço de Cirurgia Vascular do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, Luís Mendes Pedro, que defende, em entrevista, a importância do diagnóstico precoce da Doença Venosa Crónica para minimizar o risco de complicações.

 

Jornal Médico (JM) | Qual é a situação das cirurgias nesta altura da pandemia? Tem sido possível realizar os atos cirúrgicos sem percalços?

Luís Mendes Pedro (LMP) |A atividade cirúrgica tem variado, naturalmente, com os condicionamentos próprios da evolução da pandemia. A alocação de recursos aos doentes com Covid-19 na primeira vaga da pandemia e depois na segunda vaga, com um pico há algumas semanas, fez com que não fosse possível manter uma atividade cirúrgica normal ao longo de todo o tempo da pandemia e houve alguns períodos em que ela se resumiu aos doentes urgentes e prioritários. No entanto, a resposta a estes casos foi mantida adequadamente.

JM |Como tem sido o impacto da Covid 19 no tratamento e diagnóstico da Doença Venosa Crónica?

LMP | A Doença Venosa Crónica foi, seguramente, uma das áreas em que o impacto da pandemia foi grande. Houve uma redução do acesso às consultas médicas causada, por um lado, pela necessidade de evitar o contágio intra-hospitalar e pela alocação de recursos a outras áreas relacionadas com a pandemia e, por outro, pelos próprios doentes, que estiveram confinados e percecionam esta doença como menos prioritária, evitando procurar os cuidados de saúde. Assim, estou em crer que, globalmente, o tratamento da patologia venosa foi muito prejudicado pela pandemia.

JM |Qual é a importância de alertar para os sintomas, de modo a que os doentes não tenham resistência a procurar o médico nesta altura?

LMP | A importância é grande. Por um lado, porque se trata de uma doença progressiva, muitas vezes assintomática e que, nas suas fases mais avançadas, se associa a um risco real de complicações como o aparecimento de úlcera de perna, flebite superficial ou trombose venosa profunda, ou seja, à formação de coágulos na circulação venosa. A formação destes trombos é favorecida pela menor velocidade de circulação do sangue dentro das veias dilatadas e insuficientes. Por outro lado, com a aproximação do tempo mais quente, muitos doentes que não foram tratados em tempo útil irão ser mais sintomáticos e ver os seus quadros agravados neste período. Portanto, considero que, com a acalmia da atividade da pandemia que se verifica atualmente, será importante que os doentes voltem a procurar os cuidados de saúde e a efetuar os tratamentos que sejam necessários.

JM |Considera que é necessário haver mais informação sobre a doença junto do público em geral?

LMP | Claro que sim. A doença venosa é extremamente frequente e atinge camadas largas da população, sendo responsável por limitar a qualidade de vida de muitas pessoas. A informação sobre os sintomas, sobre o diagnóstico e sobre as modernas possibilidades de tratamento é essencial para que os doentes sejam identificados e adequadamente orientados e tratados.

JM |Na sua opinião, os serviços hospitalares conseguem fazer face às necessidades dos utentes?

LMP | Tendo em conta que existem listas de espera para tratamento de doentes pode sempre dizer-se que a resposta não é adequada às necessidades. Penso que nenhuma instituição pública consegue dar resposta cabal à doença venosa, uma vez que na maioria dos casos está em causa a qualidade de vida dos doentes, cuja prioridade é menor face ao risco de vida ou de perda de membro que está em causa noutras patologias, nomeadamente do foro arterial. Isto tem de ser assumido claramente quando os recursos são finitos e limitados.

JM |Como é feita a articulação com os médicos de família e os Cuidados de Saúde Primários?

LMP | A articulação nem sempre é perfeita, embora seja essencial. Temos desenvolvido algumas ações de colaboração e comunicação com os colegas de Medicina Geral e Familiar, sobretudo de algumas instituições afiliadas ao hospital. No entanto, a limitação de tempo disponível de ambos os lados, e que foi agravada pela pandemia, torna esta articulação menos efetiva do que seria desejável. Mas uma melhor comunicação com os Cuidados de Saúde Primários e a participação na sua formação relativamente às doenças vasculares é um objetivo sempre presente na atuação futura do Serviço.

JM |Qual o papel dos Cuidados de Saúde Primários como linha da frente no diagnóstico junto dos utentes?

LMP | Os Cuidados de Saúde Primários são cruciais na identificação, orientação, tratamento e acompanhamento dos doentes portadores de doença venosa. Tratando-se de doenças tão frequentes, não poderia ser de outro modo. Além disso, os profissionais dos Cuidados de Saúde Primários são essenciais no tratamento de doentes crónicos, antes ou após a atuação hospitalar, e na área venosa é um exemplo marcante o seu papel nos cuidados a doentes com feridas ou úlceras crónicas. É, pois, fundamental que haja uma boa comunicação entre os Cuidados de Saúde Primários e os Cuidados Hospitalares, de forma a que a articulação seja efetiva em benefício do próprio doente.

JM |Que tipo de doentes procura o seu serviço e de onde vêm?

LMP | O Serviço de Cirurgia Vascular do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte tem como áreas de influência algumas freguesias da região de Lisboa e é referência da região oeste (Caldas da Rainha e Torres Vedras), bem como do Algarve. Além disso, somos procurados para tratamento de patologia vascular complexa, nomeadamente na doença aneurismática da aorta, por hospitais de todo o País, onde certo tipo de intervenções não são efetuadas.

JM |No contexto da Doença Venosa Crónica, quais são as tipologias mais frequentes nos utentes do serviço?

LMP | As varizes dos membros inferiores são, obviamente, a patologia venosa mais comum.

Tratamos também doentes com trombose venosa superficial e profunda e alguma patologia menos frequente como a obstrução venosa crónica ou a síndrome de congestão pélvica.

O serviço tem também acumulado experiência em colaboração multidisciplinar com outras especialidades no tratamento de casos de doença venosa complexa, como os tumores renais com trombo na veia cava inferior, em que participamos em intervenções com os Serviços de Urologia e Cirurgia Cardiotorácica.

JM | Qual é a importância do diagnóstico precoce na Doença Venosa Crónica?

LMP | Quando falamos de uma doença que é progressiva, o diagnóstico precoce é importante para que sejam adotadas medidas que possam atrasar a sua evolução e minimizar o risco de complicações mais graves.

<